quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um conto sobre deixar ir. ( Parte 1)



Nossa bagagem emocional pode pesar muito mais do que nossa força pra aguentar.

O frio de novembro incomodava seus ossos, ela simplesmente não conseguia se mover. Lá fora um vento triste varria as folhas pra longe e uivava na sua janela, lamentando também por um dia tão cinza. Quem diria que em plena quarta-feira Noêmia estaria ali, deitada em sua cama que até ontem era um lugar de amor, mas hoje trazia um gosto amargo, um desconforto chato que não a deixava dormir.O barulho de chuva começou abruptamente. -"Além de frio, agora chuva..." Ela pensou, ao menos era mais uma distração. Olhando pra janela ela começou uma brincadeira que fazia desde muito nova, sempre que estava entediada ela apostava qual gota iria descer o vidro primeiro, quando mais nova isso era apenas uma distração, hoje era uma tentativa inútil de afastar de si aquele nó na garganta que havia a feito chorar quase um balde inteiro na noite anterior. 

-Como assim você está me deixando? O que foi que eu fiz? A voz débil e tremida denunciava claramente o desespero, só que não era nem necessário ouvir a sua voz, as lágrimas escorriam sem dó, revelando uma frágil Noêmia, totalmente dependente do seu parceiro. Parceiro esse que por sua vez, não aguentava mais viver numa relação tão morta, tão desgastante e fria  até que naquela noite de terça-feira, resolveu acabar com aquilo tudo.

O frio a trouxe de volta da noite passada, a dor era forte demais. A sensação era na carne, nada de dor psicológica como uns e outros falavam, afinal os músculos tremiam, ela quase podia sentir a pulsação de suas veias descontroladas, a sua visão estava turva e cada parte de seu corpo rangia em sincronia com uma forte náusea. Sua cabeça estava latejando, não só de dor, mas por uma intensa agitação, estava forçando as memórias, procurando inutilmente todo e qualquer erro que poderia ter cometido. -'Será que minhas roupas o irritavam? Ou será que as minhas ligações o sufocavam? Foi a minha falta de doçura? O que meu Deus, o que?!’


As horas se arrastavam, e a dolorosa nova rotina de se machucar continuava. Noêmia procurava se agarrar a toda e qualquer lembrança de dias bons, em meio à dor ela queria focar apenas na curva delicada que o sorriso do seu amor fazia ao ver algo que gostava, cada detalhe era importante. Lembrou com carinho daquela viagem de carro que fizeram oito meses atrás, um dia inteiro sorrindo e suando dentro do ‘donatelo’ um carro verde velho que tinham. Aquele dia foi um dos mais divertidos de três anos juntos, e em sua mente pareciam até cenas de filmes, pequeno frames, janelas no espaço, tudo passava em câmera lenta, e os detalhes eram deliciados como morfina. O verde na beira da estrada, o sol laranja do fim de tarde, o inchado que ficava embaixo do olho pequeno de Léo quando sorria. Léo foi um super homem que apareceu em sua vida, com um olhar de James Dean, voz mansa e muita calma para ajudar Nôemia a se libertar da depressão e da ansiedade crônicas... Com certeza a memória da viagem a alegraria no dia anterior, mas agora só doía, machucava e transformava sua alma em pó..

O fim do dia aproximava-se,e da janela do seu quarto, Nôemia tinha uma vista privilegiada. Ali na sua sacada ela tinha partilhado vários fins de tarde com muitos beijos e juras de amor eterno, mas hoje, nem o fim de dia alaranjado ( sua paisagem preferida) poderia a tirar da escuridão horrorosa que estava a consumindo por dentro, o que fazer agora?
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